A palavra criou o universo em seis dias e no sétimo, usou as mãos de sua criação

Quem diria que eu existiria. Uma história meio bagunçada, de começo incerto, do percurso curto, da juventude corrida e da poesia sempre me salvando como jamais ninguém poderia.

Poesia, seja o que você for, foi você que me abraçou quando estava milhares de quilômetros longe do meu tudo, que entendeu minha ausência de palavras em qualquer idioma, que deixou dezenas de poemas inacabados e desperados por um fim, estes que existiram só pra suturar feridas, e me perdoou por isso.

Me abraçou também quando ninguém entendia as palavras que eu estava usando no meu dia a dia, no rosto, na quietude, na troca de humor, na minha respiração.

Muitos têm saudade de mim. Mas eles têm saudade da minha mortalidade, da minha presença física, do meu cheiro. Da minha voz, talvez. Da matéria orgânica, dos meus átomos agrupados, dos traços que me tornam a pessoa das minhas fotos, dos meus olhos abertos. A existência, propriamente dita. A existência que compreende que o coração bate, eu me sinto vivo, as vezes nem tanto, eu me sinto jovem, mas bem menos que janeiro deste mesmo ano.

Eu aprendi a repartir minha alma por onde eu precisei escrever aquelas palavras. Onde eu as derramei, eu fiz ali minha morada, deixei minhas pegadas nos versos que escrevi com emoções que não cabiam no meu corpo material. Minha alma também é finita, e onde deixarei o meu último escrito, ali eu me findarei.

Eu moro dentro de cada poema, porque a poesia soprou vida em minhas narinas quando eu era apenas barro, e eu vi coisas que, aqueles sem esta curiosidade macabra de destruir neurônios, deixariam passar despercebido.

Eu nada fiz, eu só estava ali quando a poesia passou por mim. Talvez achou graça nos meus dedos estranhos, nos meus olhos tristes.

E então eu me tornei alguém que ninguém mais conhece. Alguém que eu não conhecia. Que desconheço também de vez em quando.

Mas sou pecador. Eu nego ser poeta. Eu nego a poesia que me criou. Eu também me apego à minha mortalidade, e as vezes esqueço quem sou. Já precisei declamar os meus poemas como quem roga desperado ao seu deus por socorro.

E no final das contas, cada palavra é um universo inteiro, e eu vivi milhões de vezes e para sempre nos versos em que me encontrei comigo, ou que encontrei com alguém que me ouvia enquanto me leu. Talvez meus escritos sejam todos destruídos, eu não mais exista. Mas pode ser que eu me torne também a poesia que um dia me visitou.

Citações

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